Desde que o pecado entrou no mundo, tudo o que fazemos é pecar uns contra os outros.

Você toma o meu lugar na fila. Estava com pressa, seu patrão te ligou e o chamou de “inútil”. Eu não posso aceitar, tenho que defender meus direitos. Te xingo de “babaca”. Em resposta, você me xinga de “inútil”.

Nós nos separamos. Você vai para a esquerda. E eu, para a direita. Então ao primeiro que te fecha no trânsito, você abre a janela e grita “babaca”. Parabéns! Aprendeu direitinho comigo. Mas eu também sou bom aluno. Sei como tratar o “inútil” que jogou lixo em minha calçada.

O ciclo se repete. Continuamos a pecar uns contra os outros. Eu acuso o seu pecado. Você acusa o meu. A trave em meu olho parece não pesar. Se eu me livrasse dela, talvez pudesse ajudá-lo a retirar o cisco do seu. Não importa. Logo estaremos todos cegos. E banguelos.

Até que alguém receba um tapa no lado direito do rosto e ofereça o esquerdo. Até que alguém mesmo sabendo que em breve os seus “melhores amigos”, a quem dedicou anos de sua vida, irão abandoná-lo, fingir que não o conhece e traí-lo, encha uma bacia com água e se prostre no chão para lavar os seus pés.

E ao se levantar esse alguém indague “Vocês entendem o que fiz?” Não. Vocês não entendem. Todos vocês merecem o castigo. A cruz. O fogo. A morte. Porém, no dia em que me avistarem no alto daquele monte, ou lerem sobre mim, ou ao menos ouvirem meu nome… Espero que entendam o que fiz.

Quando entenderem, enfim serão capazes de amarem-se uns aos outros, como eu amo a vocês. Amarem até mesmo a seus algozes. Afinal, não foi isso o que fiz? Assim, quem os ver, saberá que vocês são de fato meus amigos. E de muitos, alguns também entenderão o que fiz.

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Medson Barreto

MEDSON BARRETO nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1993. É um contador de histórias no papel, na tela e no palco. Escreve roteiros para teatro, atua e dirige desde a adolescência. Compõe poesias, letras de músicas e crônicas. Publicou o livro “Eu não perdi a minha fé”, em que narra a impressionante história de sua família. Seu romance de estreia, “O céu de Roma Negra”, o apresenta como um novo nome da literatura policial brasileira.