Pai e bebê - O pai que você precisa - Devocionais - Reflexão - Medson Barreto

Há tempos eu não brincava com bonecas. Aquelas duas irmãzinhas — a primeira de 5, a segunda de 1 ano — ocuparam meu grupo de cinco amigos e a mim por toda a tarde. Estávamos hospedados na casa da família. Os pais saíram após o almoço e deixaram as filhas sob nossa responsabilidade. Divertimo-nos com todos os brinquedos disponíveis. Cantamos e dançamos. Trocamos fraldas, demos banhos, preparamos lanches. E tudo mais que crianças destas idades necessitam. As meninas nos adoravam!

Contudo, lá pelas cinco da tarde, a caçula começou a chorar. Tentamos conversar, mas ela não conseguia expressar o que sentia. Não estava suja ou molhada, com fome ou sono. Não havia nada que pudesse assustá-la, nem parecia ter alguma dor. Afinal, o que ela queria?

Então, ouvimos passos nas escadas que levavam para o apartamento no segundo piso. O sorriso no rosto da menina foi imediato.

— Papai… papai… — ela chamou.

A porta da sala se abriu, o som dos passos ficou mais próximo.

— Papai… papai… — a menina gritou outra vez, se pondo de pé sobre a cama. Quando avistou o pai, a pequena estendeu os braços e saltou em seu colo. O homem a segurou e cobriu-a com abraços e beijos.

Naquele instante, foi como se eu entrasse numa máquina do tempo e viajasse para uma época da qual não possuo lembranças nítidas, porém de que ouvi inúmeras histórias.

Durante meus primeiros 22 meses de vida, meu pai saía para trabalhar, enquanto minha mãe cuidava da casa, de mim e de meu irmão mais velho. Nós três passávamos um ótimo dia juntos. Aparentemente, tínhamos tudo o que precisávamos. Entretanto, eu, um menino recém-chegado nesta Terra, sentia a falta de alguém. No fim da tarde, quando meu pai retornava do trabalho, sem precisar de aviso, eu caminhava até o portão equilibrando-me com os braços para frente. Ele chegava com um enorme sorriso e me tomava pelas mãos. Em seguida, a festa da família se iniciava. Nos lançávamos na cama, rolávamos no chão, pulávamos, brincávamos de cavalinho, jogávamos futebol no quintal e contávamos histórias.

Esta belíssima cena aconteceu por meses, mas logo deixou de se repetir… Fiquei órfão de pai semanas antes de meu segundo aniversário. Tudo aconteceu de forma inesperada. Como um menino tão novo poderia compreender? Assim, por dias e semanas a fio, eu mantinha a mesma rotina. Minha mãe, em lágrimas, interrompia-me na metade do percurso.

— Oh, meu amor, papai foi para o céu, ele está feliz com Jesus. Mas a mamãe te ama muito, e seu irmãozinho também te ama… — ela dizia.

Meu olhar continuava fito no portão, na expectativa de que meu pai entrasse. Durante toda a infância, não me conformei com a sua partida. Por vezes, me posicionei na calçada de frente à nossa casa, olhando para os lados, esperançoso de que o veria caminhar em minha direção. Os anos se passaram, e, é claro, ele nunca retornou.

Isto me leva a refletir em outra história. Acredito que você possui um exemplar do livro mais vendido do mundo em sua estante, e já tenha lido, ou pelo menos ouvido, os fatos registrados nos três primeiros capítulos[1].

Adão e Eva foram criados à imagem e semelhança divina, feitos para viverem em plena comunhão com Deus. Os primeiros filhos da humanidade eram visitados por Deus diariamente ao entardecer. Imagino o sentimento paternal do Criador ao notar o desenvolvimento de seus filhos, como alguém que se orgulha ao ver a criança dar os primeiros passos e dizer as primeiras palavras.

Numa tarde, quando Deus caminhava pelo jardim, o homem e a mulher esconderam-se entre as árvores. Haviam desobedecido a uma ordem, pecaram ao desejar ser e possuir além do que lhes fora permitido. A seguir, não assumiram a própria responsabilidade, lançaram a culpa um ao outro e, enfim, à serpente.

Aqueles encontros encerraram-se. Aqui, não foi o Pai quem morreu, fomos nós! Os descendentes e herdeiros de Adão e Eva perderam a identidade e o direito de serem filhos, passaram à condição de escravos de suas próprias vontades e de condenados à perdição eterna.

No entanto, não pense que um Pai tão amoroso permitiria que a história se findasse deste modo. Milhares de anos após o Éden, o Filho Amado, Jesus, veio à Terra. Foi também numa tarde, que, no alto de um monte, seus discípulos lhe pediram que os ensinassem a orar. E o Cristo os convidou a dirigirem-se a Deus como “Pai nosso”.

É por este Pai que Jesus, vivendo o auge de sua angústia, clamou no jardim do Getsêmani: “Aba, Pai, tudo é possível para Ti. Peço que afaste de mim este cálice. Contudo, que seja feita a Tua vontade, e não a minha[2]”.

No aramaico, Aba era a maneira como um bebê que estava aprendendo a falar chamava pelo pai. Um bebê nada entende a respeito da vida, do pai ou de si mesmo. Experimente perguntá-lo seu sobrenome, o endereço de sua casa ou a profissão de seus familiares. Ele apenas te devolverá um olhar confuso. O bebê não possui controle sobre o futuro e detém poucas expectativas. Apenas sabe que, ao chamar pelo Aba, o homem de quem ele reconhece a voz, o cheiro e o tato, vem e o toma no colo. A presença do Aba é o que mais importa! Ali, entre aquele par de braços o bebê se sente seguro. Ele sabe que suas feridas serão tratadas, sua fome e sede saciadas, receberá roupas novas e um berço para dormir.

Agora, Deus Pai vai além de nos visitar ao entardecer; o Pai Nosso caminha conosco por todo o dia, habitando dentro de nós. Mediante a fé em Jesus Cristo, o Filho Amado, nós somos aceitos novamente como filhos de Deus[3].

É este o Pai que você precisa! Caminhe em direção ao portão, mesmo que ainda não seja capaz de vê-Lo. Ouça os passos dEle, o som de suas batidas na porta, a voz que chama por seu nome. Permita que Ele entre, ponha-se de pé sobre a cama e se lance sem medo nos braços de Deus, o bom Pai.

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[1] Gênesis 1 a 3.

[2] Marcos 14.36 NVT.

[3] Gálatas 3.26; Gálatas 4.6,7; Romanos 8.15-17.

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Medson Barreto

MEDSON BARRETO nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1993. É um contador de histórias no papel, na tela e no palco. Escreve roteiros para teatro, atua e dirige desde a adolescência. Compõe poesias, letras de músicas e crônicas. Publicou o livro “Eu não perdi a minha fé”, em que narra a impressionante história de sua família. Seu romance de estreia, “O céu de Roma Negra”, o apresenta como um novo nome da literatura policial brasileira.