“Nenhum homem é uma ilha isolada”, escreveu John Donne.

Não sei quanto a você, mas eu não me sinto bem confortável quando tenho de depender inteiramente de alguém. Encontrar o almoço pronto é muito bom, porém prefiro me servir e comer com as minhas próprias mãos. Este é um exemplo simples, existem inúmeras áreas de nossas vidas nas quais precisamos de que outras pessoas realizem certas coisas para suprir as nossas necessidades ou desejos.

Só existe uma pessoa em todo o universo que é suficiente em si mesmo, e que não precisa de absolutamente nada que alguém tenha a oferecer. Sim, estou falando de Deus.

Então, chegamos a mais um Natal. A data na qual celebramos o dia em que “Deus quis ser menino”, como disse Leonardo Boff. A Bíblia afirma que todas as coisas foram criadas por intermédio de Jesus[1]. Porém, agora, o ser mais poderoso do universo, se coloca sujeito à sua própria criação.

Enquanto bebê, Jesus precisou de que um casal da periferia de Judá lhe amamentasse, colocasse comida em sua boca, lhe desse banho e limpasse seu cocô. Por mais bem intencionados e responsáveis que Maria e José fossem, tenho certeza de que eles cometeram erros ao cuidar do bebê divino. Numa noite demoraram acordar enquanto Jesus chorava, outro dia limparam mal ao seu bumbum e Jesus teve uma assadura. Ainda assim o Deus encarnado escolheu depender destes humanos.

Trinta e três anos mais tarde, encontramos Jesus, num dos últimos dias de sua vida, a orar por seus seguidores pedindo que eles fossem “um” e experimentassem a unidade perfeita[2].

É sim desafiador conviver com outras pessoas, seja em família, como Igreja, em um namoro ou amizades, na vizinhança, trabalho e estudos. Somos feridos e ferimos. Decepcionamo-nos e magoamos a outros. Ouvimos o que não merecíamos e falamos o que não deveríamos. Quando mais necessitamos, pessoas se afastam, e não estamos presentes sempre que alguém precisa.

Contudo, uma das lições que aprendo com o Natal – e o fato de Deus ter vivido na Terra também como uma criança – é sobre relacionamento. Não somos uma ilha. Fomos criados para viver juntos. “Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros”[3], Jesus disse na última ceia.

Os corais das igrejas, presépios, decorações, árvores, pisca-piscas, uva-passas, amigos secretos, Papais Noeis, especiais do Roberto Carlos, o tio do pavê e todos os costumes e símbolos que vemos nesta época podem servir como um lembrete, um aviso, uma notificação.

Ao olhar para este mundo de eventos, informações, sons, cores e sabores que o Natal se tornou, meu desejo é que você se lembre de apenas uma coisa: Você é amado por Deus e Ele escolheu também depender de nosso amor ao nascer aqui. E é este mesmo amor que Ele não só espera de nós, mas também gera em nós. Para que sejamos capazes de amar a Ele e uns aos outros, até sermos um, como Jesus e o Pai são um.

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[1] 1 Coríntios 8.6.

[2] João 17.22-23.

[3] João 13.35.

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Medson Barreto

MEDSON BARRETO nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1993. É um contador de histórias no papel, na tela e no palco. Escreve roteiros para teatro, atua e dirige desde a adolescência. Compõe poesias, letras de músicas e crônicas. Publicou o livro “Eu não perdi a minha fé”, em que narra a impressionante história de sua família. Seu romance de estreia, “O céu de Roma Negra”, o apresenta como um novo nome da literatura policial brasileira.